Quando resta um fio de esperança

Quando resta um fio de esperança

Na era vitoriana, o pintor inglês George Watts tornou-se famoso por suas obras alegóricas, tais como Hope (Esperança) e Love and Life(Amor e Vida). Tais pinturas foram planejadas para formar parte de um ciclo épico simbólico denominado Casa da Vida, no qual as emoções e aspirações da vida seriam representadas numa linguagem simbólica universal.

O escritor John Castleberry conta que um desalentado homem, em Londres, dirigia-se para a zona portuária com a intenção de jogar-se de uma ponte e suicidar-se. Um pouco antes, deteve-se em uma praça para observar uma exposição de quadros de pintores célebres. A sua atenção foi providencialmente despertada para o famoso quadro do pintor Watt, denominado Esperança. No quadro, ele contemplava que uma jovem com os olhos vendados está sentada numa esfera escura, que representa o universo, a dedilhar uma harpa que continha apenas uma corda inteira, ou “um fio de esperança”; as demais tinham arrebentado.

Tal observação foi suficiente para que, com um novo ânimo de viver, mudasse de ideia, pois refletiu que ainda lhe restava um lar, sua esposa e um inocente filhinho por quem lutar. Era o seu fio de esperança, o único que lhe restara. De igual modo, toda pessoa precisa de esperança, mesmo que seja “um fio”, senão entra fatalmente numa espiral de depressão e desespero. Principalmente num mundo marcado por desencantos, a esperança é um artigo não somente valioso, mas também imprescindível.

Há desencantos de toda sorte na vida. Quando vemos que as artes em geral beiram a fronteira da loucura e se inspiram na fonte da futilidade; quando o entretenimento se alimenta majoritariamente das veias da violência e da banalização da vida; quando o mau uso da ciência tornou-se o grande vilão da deterioração ambiental; quando a religião deixa de oferecer respostas e, em vez disso, é geradora de escândalos e guerras; quando a classe política dirigente tem a menor credibilidade na sociedade; quando temos uma economia embalada pela busca desenfreada do lucro, da menos-valia do trabalho e da mais-valia da especulação do capital; quando o homem é o principal opressor e explorador do próprio homem; sim, quando vemos isso tudo, o que sobra senão descrença e desespero?

Há pessoas com problemas antigos, alguns peculiarmente difíceis; outros têm sido enganados no tocante aos seus verdadeiros problemas, gastando a poupança de uma vida toda e recebendo em troca apenas “soluções” paliativas. Alguns tiveram a esperança repetidamente despedaçada, vivendo agora assaltados pelo medo. Outros, porque tentaram e falharam, vivem deprimidos. E há aqueles que desistiram de tentar e, por isso, acalentam tendências suicidas. Há ainda os que sofreram experiências abaladoras e deixaram de crer na possibilidade da esperança. Mas de que esperança se precisa e o que se deve fazer para obtê-la? Ou será que ainda resta algum fio de esperança, algo no qual colocar a confiança, mas sem o medo paralisante de sofrer novas decepções?

A esperança de que precisamos tem que abranger uma dimensão que aponte soluções para o futuro e dê respostas à vida presente. Por isso ela não deve encerrar o sentido de incerteza que se aderiu ao nosso vocábulo português (quando dizemos cautelosamente: “Espero que assim seja”).

No conceito bíblico não há esse sentido, pois, ao contrário, a esperança sempre significa uma expectação confiante. Quando Paulo escreveu a Tito acerca da “bendita esperança” do Evangelho, por exemplo, ele o exortava a que dirigisse o olhar para adiante do próprio nariz, para a “feliz expectativa” da “manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13).

O apóstolo não embalava a menor ideia de incerteza no tocante a esse fato, assim também como falava com absoluta convicção do poder de Jesus de mudar a nossa vida, perdoando os nossos pecados e nos fazendo participantes dessa mesma esperança. O Evangelho, pois, exibe uma dupla esperança: no futuro, vinculado ao retorno de Cristo, à ressurreição do corpo e ao aniquilamento do pecado, da dor e de todos os outros tipos de males do mundo. Isso inclui a esperança da perfeição final por causa da presença gloriosa de Cristo. Mas o Evangelho não promete que só participaremos do bolo quando esse tempo chegar; na verdade, podemos começar a “provar as fatias” aqui e agora.

Há a esperança de uma vida nova e abundante, agora mesmo, como disse Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância” (Jo 10.10). Uma vida plena metaforizada na imagem de uma fonte sempre a jorrar: “Aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).

A Bíblia diz que “tudo quanto outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). Assim, há uma grande esperança para a sua vida, pois Jesus ama você, morreu por você e quer viver em você e através de você. O caminho da verdadeira esperança está em Cristo. Como está escrito: “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27).

Em Cristo você tem muito mais que um fio de esperança. Jesus Cristo é a única esperança!

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém
E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv

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