O que Panúrgio pode ensinar ao Brasil

O que Panúrgio pode ensinar ao Brasil


pr_samuel

Não censurarei nenhum dos meus leitores por não saberem quem é Panúrgio, muito menos sobre as lições que ele poderia ensinar ao Brasil. Eu mesmo só o descobri nas páginas do romance Pantagruel, de François Rabelais, que o criou como um personagem falante e simpático, mas sem importância e sem dinheiro. Panúrgio fora injuriado por Dindenaut, vendedor de carneiros. Para vingar-se, Panúrgio comprou-lhe os carneiros mais bonitos e os jogou ao mar. Os demais, vendo isto, seguiram cegamente os primeiros, de modo que todo o rebanho pereceu nas águas. Dindenaut e seus ajudantes jogaram-se também ao mar na tentativa de salvar seus carneiros, mas também se afogaram.

Com o tempo, o personagem emprestou seu nome à Gramática, e Panúrgio virou sinônimo de “espertalhão, astuto”, um sujeito mau-caráter que só pensava em se vingar, fazendo disso sua estratégia de vida. Para ele, não importa o dano que venha a causar aos outros, bastando-lhe apenas que aplaque sua sede de vingança, em mostrar que, ao fim e ao cabo, é ele quem detém o poder de vitimizar seus adversários, mesmo que, para isso, venha a causar danos a outros sob o poder de sua influência.

Como há sempre o outro lado, o dos “amigos”, aqui também encontramos os sujeitos sob a influência direta de Panúrgio, cujo mote de vida decorre de um processo psicológico que eu chamaria de “síndrome do artista tardio”, pois tudo o que lhes vale é a imitação do líder que lhes deu alguma importância, mesmo que isso lhes custe a própria vida. Em proceder por espírito de imitação, tal qual fizeram os carneiros de Panúrgio, esses sujeitos abrem mão de ser o que realmente são, para serem o que o seu honorável líder lhes manda que sejam.

O efeito Panúrgio se tornou, portanto, uma expressão adagiária para indicar liderança forte de uma mente maligna e a mentalidade gregária enfraquecida dos que lhe seguem. Em suma, basta que o líder fale mais alto para que uma minoria psicologicamente encabrestada o siga sem raciocinar, enquanto a maioria silenciosa assite a tudo impassível.

Sofrer de panurgismo, ou seja, do defeito gregário de uma minoria expressiva que acompanha cegamente quem mais grita, sem examinar as razões de sua gritaria, é algo que se deve evitar sempre, principalmente em época de crise. Não importa se os “girinos imberbes” do sindicalismo pelego sucumbem ao comando do grande líder “sabo barbudo” que os matam; ou se os “pardais simplórios” do servilhismo estatal esperam impávidos a posição patriótica dos “tucanos inglórios” que nunca vem; ou se as “ovelhinhas caducas” das igrejinhas sintéticas aguardam as cobranças dos “pedágios divinos” para herdarem a “salvação” através do sacerdócio maligno de líderes que rugem como leões, mas que são apenas lobos travestidos de ovelhas.

Não são poucos os líderes, na política ou fora dela, inclusive nas igrejas, que tentam passar a impressão de que são mais virtuosos que todos os outros. Fazem-nos pensar que, uma vez estabelecida a sua liderança, a vida será transformada num mar de felicidades, claro, se forem obedecidos cegamente ate à morte.

O líder “Panúrgio”, seja que outro nome ostente, ou qual função desempenhe, tenta nos fazer crer que é o líder perfeito e espera que os “carneirinhos” (liderados) sigam os seus passos cegamente, sem questionar, como se questionamentos, quaisquer que sejam, representassem uma inominável oposição, não a soma das sabedorias que nos faz acertar bem mais e bem melhor os passos da vida.

Todavia, o líder perfeito, todos nós o sabemos sobejamente, não existe! Mas é importante que falemos do líder perfeito, ou melhor, do que isso realmente significaria, caso existisse. Foi no Senado Romano, onde um senador deveria ter “idade avançada”, ou ser “ancião” (cujas cãs mereciam respeito), que a palavra latina “perfectu”, em associação à liderança, teve sua expressão inicial. Ser ancião significava conhecimento e experiência. Sua túnica branca representava a pureza, tinha que ser cândida (branca, pura). Daí o surgimento da palavra candidato.

Perfeito vem do latim “perfectu”, feito até o fim, acabado, terminado. “Per” é um prefixo que traz a idéia de intensidade e totalidade, além de ampliar o alcance de uma palavra. Quando uma coisa pode durar mais do que seria de esperar, ela é perdurável. Uma das particularidades das palavras formadas com o prefixo per é que mostram algo que vai além das expectativas: perene, permanente, persuasão, perseverança, perecer, perdão etc. A palavra “fectu” é “feito” em Latim. Portanto, um “candidato perfeito” não é aquele que apenas existe: é alguém completo, sem nenhuma falha. E isso, obviamente, não existirá jamais!

É por isso que os candidatos aos cargos eletivos não são cândidos, nem os políticos eleitos para assumir posição no arcabouço político oficial não são perfeitos. Antes, na sua maioria, são apenas homens apequenados pelas cobranças infinitas de um sistema que não lhes deixa ser o que sua vocação original, quando a mesma era pura, os empurrou nessa caminhada que deveria desembocar em serviço abnegado à Pátria-Mãe-Gentil. No seio de um “gigante adormecido em berço esplêndido”, são apenas anões morais de uma “Cinderela Tupiniquim” que jamais acordou do seu sonho involuntário provocado pelo veneno que a Corte Lusitana, em eras priscas, inoculou em sua alma tupi-brasileira.

Temos de reconhecer o potencial humano para o comportamento interesseiro e pecaminoso. É isso que torna a democracia essencial, como disse o filósofo Rienhold Niebuhr: “A capacidade do homem para a justiça torna a democracia possível; mas a inclinação do homem para a injustiça torna a democracia necessária”. É isso que torna a vontade de cada cidadão importante e imprescindível, quer na hora do voto numa eleição que pretende dar novos rumos à nação, quer na hora de um protesto pacífico que pretende barrar caminhos de indignidades políticas mesquinhas e espúrias.

Para os que sofrem de panurgismo, a consciência pode estar no estômago, pois vende a sua vontade por um mero repasto, um simples sanduíche de mortadela, por exemplo, para participar de atos para manter o “status quo” de líderes pelegos que os mantém a rédea curta. Para outro, a consciência pode estar no bolso, pois apenas um punhado de trocados compra o seu direito de cidadania. Outro ainda, se deixa levar pelo barulho das próprias emoções da hora, sem pensar no bem estar da maioria silenciosa.

Panúrgio pode ensinar grandes lições ao Brasil. Principalmente a de não seguirmos líderes que só pensam no próprio umbigo.

 
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv

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