Mesmo que Deus pareça distante


pr_samuel

Etty Hillesum era uma jovem judia que vivia em Amsterdã nos idos de 1942, quando os nazistas intensificaram a perseguição aos judeus, prendendo-os e arrastando-os para os campos de concentração. Etty sabia que era uma questão de tempo para sua inevitável prisão e banimento. Temendo o futuro desconhecido e sentindo-se sozinha, ela começou a ler a Bíblia, e teve um encontro com Jesus, conhecendo-o como seu único e suficiente Salvador. Ela colocou sua confiança em Deus, encontrando coragem e esperança incomuns.
Etty escreveu em seu diário: “A destruição cai sobre nós de todos os lados; breve o círculo se fechará e ninguém poderá vir em nosso socorro. Entretanto, não sinto que esteja em poder de qualquer pessoa. Sinto-me segura nas mãos de Deus. Seja sentada em minha escrivaninha no bairro judeu ou num campo de trabalhos forçados sob a vista dos guardas da SS, me sentirei segura nas mãos de Deus. Pois uma vez que você começou a caminhar com Deus, só precisa continuar andando com Ele, e toda a vida torna-se um longo passeio”.
Para Etty Hillesum, mesmo diante do perigo e da morte iminentes, Deus não lhe parecia estar de modo algum distante. Diferentemente do que costumeiramente presenciei durante o meu ministério pastoral, quando tive a oportunidade de aconselhar inúmeras pessoas que se sentiam conturbadas por acharem que Deus parecia estar distante, sem se preocupar com suas necessidades pessoais, enfim, com nada que fizessem ou deixassem de fazer. Deus não somente parecia longe, mas também totalmente silente. O resultado imediato disso é que essas pessoas tinham uma enorme dificuldade para se relacionar com Deus.
Alguns casos não eram particularmente fáceis de entender. Em outros casos, porém, a verdadeira razão logo aparecia: culpa, pecado não confessado, espírito de vingança, orgulho, vícios, ansiedade, e assim por diante. Nesses casos, era preciso haver confissão de pecado, restituição, perdão, enfim, o abandono completo de comportamentos destrutivos e o retorno humilde ao Senhor.
Vi muitas vidas serem restauradas, pois “as misericórdias do Senhor não têm fim”. E também: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1.9).
No entanto, quando não havia nenhum pecado evidente, pois a pessoa mantinha a vida limpa e a submissão diária a Jesus como Senhor, lia a Bíblia e orava persistentemente, o melhor conselho que eu podia oferecer era este: “Compartilhe com Deus o seu problema e mantenha o curso da sua vida normalmente. Espere no Senhor e continue a fazer o bem”.
A Bíblia apresenta o exemplo de algumas pessoas que enfrentaram problema semelhante, algumas das quais eram realmente santas e tementes a Deus. O profeta Jeremias, por exemplo, era reconhecidamente um homem de Deus, falava a Palavra de Deus, vivia para Deus. Ele marcou tão profundamente a alma da nação israelita que Jesus, cerca de 650 anos depois, foi comparado a ele (Mt 16.14). Talvez porque o povo via Jesus chorar por Jerusalém, tal como Jeremias, e fazia a correlação.
Mas Jeremias passou por momentos difíceis na sua relação com Deus, pois sentia como se Deus não somente estivesse distante, mas parecesse até mesmo ser seu inimigo. Numa imagem estonteante Jeremias descreve a sua angústia em relação a Deus (Lamentações 3.1-25).
Ele sentia como se Deus tivesse voltado contra ele a Sua mão (v.2). Ele clamava, mas parecia não ser ouvido (v.8). Sentia-se como se Deus o estivesse caçando (v.10). Via-se como motivo de escárnio do povo e objeto de suas canções (v.14). De tanto não ter paz na alma, chegou a esquecer-se do bem (v.17). Por fim, achou que a sua esperança no Senhor havia acabado (v.18). Mas uma coisa aconteceu: ao colocar a sua tristeza em palavras, Jeremias viu que uma luz penetrava na escuridão e restaurava a sua esperança no Senhor. Ele passou a fazer afirmações de fé e buscou trazer à memória o que lhe podia dar esperança (v.21).
E então ele concluiu: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca” (vs.21-25).
Não são poucos os que, por causa do silêncio de Deus, ou de Sua suposta ausência, carregam o fardo pesado da ansiedade. Mas é bom que percebamos que a ansiedade existe praticamente devido a fardos que assumimos como nossos, quando deveríamos colocá-los nas mãos de Deus. Grande parte das nossas preocupações pertence ao futuro (o que vamos fazer amanhã, ou na semana seguinte) e uma percentagem razoável tem a ver com as sobras do passado.
Quanto aos erros do passado, só resta confissão e abandono, e buscar o perdão do Senhor. Quanto às preocupações do futuro, é mister deixá-las aos cuidados de Deus; relaxar e seguir a orientação do Espírito: “Confia os teus cuidados ao Senhor, e ele te susterá… lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (Sl 55.22; 1 Pe 5.7).
Se você pensa que Deus pareça distante, por causa da grandeza dos seus problemas, não se desespere. Confie em Deus, conte a Ele sobre tudo isso. Continue a fazer o bem, o que sabe ser correto. A luz de Deus irá penetrar na sua alma. E quando ela iluminar o seu coração, você verá que cresceu muito mais em razão da provação pela qual passou. E saberá que Deus sempre esteve perto e cuidando de você.

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv