Deus não é só Pai também é Mãe

Deus não é só Pai também é Mãe


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Tratando sobre o cerco e destruição de Jerusalém, o historiador judeu Flávio Josefo conta que um soldado romano encontrou uma galinha totalmente torrada, numa posição arqueada como se estivesse chocando seus ovos. Quando a afastou com a espada, debaixo dela saíram, piando, assustados pintinhos. A conclusão óbvia é que o instinto “materno” falou mais alto. Mesmo diante do fogo destruidor, a galinha fez o que só uma mãe extremada podia fazer: preferiu morrer para salvar seus “filhinhos”.

Esse era o mesmo sentimento que havia em Jesus, quando comparou a Sua compaixão por Israel com o cuidado extremado de uma galinha: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mt 23.37).

Sendo Jesus o Filho de Deus, “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser”, ali estava o próprio Deus se comparando a uma galinha (Hb 1.3). Por quê? Porque nenhum outro animal tem comportamento semelhante. Diante do fogo, qualquer outro animal foge. A galinha, quando tem de salvar seus pintinhos, mesmo em face da morte pelo fogo, não hesita. Do mesmo modo, Jesus não fugiu da raia quando teve de sofrer para nos salvar.

Saiba que é uma grande injustiça chamar de “galinha” alguém que, por mero mau-caratismo, não consegue ser fiel. Jesus, mostrando-se fiel à infiel Jerusalém, como uma “Mãe”, mantinha sempre as “asas” abertas oferecendo acolhimento a quem não merecia.

Nem sempre é fácil imaginar Deus numa perspectiva maternal. Sempre fomos acostumados à ideia de que Deus é Pai. Isso soa quase como um clichê numa cultura paternalista. Sendo assim, quando Deus resolveu Se revelar à humanidade, geralmente Ele o fez utilizando essa mesma visão cultural: nasceu como homem, viveu como homem, morreu como homem. E Jesus, o homem perfeito e sem pecado, deixou bem claro essa imagem paterna masculina de Deus, quando disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Jesus se referiu ao templo como “casa de meu Pai”. Deus era “Aba”, seu “paizinho” querido.

Quando Filipe indagou de Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”, Jesus lhe respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14.8-10).

Não podia ser diferente numa cultura patriarcal e masculinizada. Mas essa imagem só tem razão de ser relativamente ao aspecto cultural. Porém, o próprio Jesus, ao tratar sobre a vida eterna, deixa claro que, no céu, não haverá essa divisão pela sexualidade: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu” (Mt 22.30).

Na eternidade, não haverá para nós, assim como nunca houve essencialmente para os anjos, nem para Deus, essa visão de macho e fêmea. Em Cristo, não há homem nem mulher, porque somos um só corpo (Gl 3.28). Deus é o “EU SOU”, o Ser Supremo, onde todos os outros seres encontram seu sentido e importância na Criação, porque Nele existimos e nos movemos (At 17.28). E ponto final!

Mas a grande verdade é que o próprio Deus, que Jesus chama de Pai, algumas vezes também se identificou como “Mãe”. Quando Deus prometeu a Abraão que multiplicaria a sua descendência “como as estrelas do céu”, identificou-se com este nome: “Porque eu sou El Shadai”. A palavra Shadai vem de Shad, que significa “mama, seio, úbere”, e expressa a ideia de fartura, fertilidade, abundância, ternura carinho e amor. Assim, Deus é o Sustentador que alimenta seus milhões de filhos no peito, tal como uma mãe amamenta seus filhos.

Aplicando a Deus o título de Shadai, a cultura hebraica demonstra que também havia, em suas entranhas, a possibilidade de ver Deus como mãe, pois é no conceito de mãe que se expressa a noção de proteção, de carinho, de alimento e de fartura, elementos básicos para sustentar a vida de uma criança. O Deus que acompanha Abraão é Pai, mas, em certos momentos, também é mãe.

De forma análoga, Deus não vê problema em tomar emprestado da natureza os exemplos das mais extremadas mamães. Por isso, Ele evoca a imagem de uma águia, mestra na arte de ensinar a voar: “Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o Senhor o guiou” (Dt 32.11,12).

Quando Deus estava muito zangado, Ele próprio se comparava com uma “ursa, roubada de seus filhos” (Os 13.8). Quem brincaria com uma mãe ursa zangada? Talvez por isso o escritor sagrado nos tenha lembrado: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31).

Deus é Pai, temos certeza, e bem mais pai que todos os pais do mundo. Deus também é Mãe, sem sombra de dúvida, e bem mais mãe que todas as mães da terra. Como está escrito: “Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.15).

Deus não é só Pai de amor e bondade; Ele também é Mãe extremada em seu cuidado e proteção por seus filhos e filhas. Por causa do Seu incomensurável Amor, de Pai e de Mãe, todos os filhos podem celebrar esse dia especial dedicado às suas mamães. E também todas as mamães do mundo podem ter um “Feliz Dia das Mães”!

 
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

E-mail: samuelcamara@boasnovas.tv

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